Pensamento vivo · Fluxo
Fotografia e tendências: a imagem e as suas formas
Este texto acompanha a cadeira de Fotografia e Tendências, na licenciatura em Fotografia e Cultura Visual do IADE. Não é um programa nem um manual técnico. É um mapa: uma forma de olhar para o que a fotografia está a fazer hoje, para onde se desloca, e para os lugares e objectos em que aparece. O fotolivro ocupa o centro deste mapa, porque é onde muitas das tendências da imagem se tornam visíveis e decidíveis, mas o mapa é maior do que ele.
A cadeira parte de uma convicção simples: a melhor forma de perceber as tendências da fotografia é fazê-las. Por isso este percurso pede que se fotografe desde o primeiro dia, sem projecto fechado, enquanto se olha para o trabalho de outros. O que se vê dá olhar ao que se fotografa; o que se fotografa dá sentido ao que se vê. As duas coisas avançam juntas, e é desse avanço conjunto que nasce, no fim, um trabalho próprio.
O texto organiza-se em cinco movimentos, que são também os do programa: ver fotografia, a passagem dos suportes físicos aos digitais, a fotografia como catalisador de outras formas de expressão, a fotografia como ferramenta social e colaborativa, e os novos autores e as novas formas de mostrar. Não são etapas que se cumprem e se deixam para trás. Voltam umas às outras. Quem chega ao fim regressa ao princípio com outros olhos.
Ver fotografia: como, quando, onde, porquê
Antes de fazer, ver. Mas ver não é evidente. Olhamos para milhares de imagens por dia e quase nenhuma nos detém. A primeira pergunta da cadeira é por isso a mais difícil: como se vê uma fotografia, quando, onde, e porquê uma e não outra.
Houve um tempo em que a resposta parecia estável. A fotografia era uma janela: alguém de um lado, o mundo do outro, e a imagem como prova de que esse mundo esteve ali. Quem fotografava ocupava um ponto de vista, à distância, e a imagem trazia o mundo intacto a quem a visse. Este modo de ver organizou a fotografia durante muito tempo, e organiza ainda boa parte do que se ensina sobre ela.A noção dúplice de observação em Jonathan Crary é o ponto de partida: o observador como construção histórica, não como dado natural. Quatro grupos de autores questionam-na, cruzando as quatro categorias da fotografia. Espaço/arquitectura: Gordon Matta-Clark, Alexandre Alagoa, Thomas Demand, Bernd & Hilla Becher. Retrato e apropriação: Sherrie Levine, Rineke Dijkstra, Thomas Ruff, Andy Warhol. Paisagem e percurso: Robert Smithson, Richard Long, James Benning, Zoe Leonard, Alberto Carneiro. Objecto e arquivo: Taryn Simon, Huang Po-Chih, Ana Pérez-Quiroga, Rui Calçada Bastos.
Acontece que quem hoje entra num curso de fotografia já não vê assim. Cresceu dentro do ecrã, não em frente a uma janela. A sua atenção mergulha e dispersa-se, imerge e desvia-se, salta entre imagens sem a distância contemplativa que o modo antigo pressupunha. Isto costuma descrever-se como um défice, uma falha de atenção a corrigir. Aqui parte-se do contrário: é um modo de ver próprio, com a sua força, e as tendências mais vivas da fotografia actual respondem-lhe.O lugar do observador é a questão central da cadeira: a relação entre presença e representação. A imagem técnica pensa-se na sua relação com o espaço e o tempo, com Henri Bergson e o tempo espacializado em pano de fundo. O observador distanciado, herdeiro da perspectiva, é posto em causa pela prática contemporânea.
Ver fotografia, nesta cadeira, é então duas coisas ao mesmo tempo. É aprender a deter-se numa imagem, a dar-lhe o tempo que ela pede. E é reconhecer-se no modo de ver que já se tem, em vez de o trocar por um modo emprestado de outra época. Começa-se a fotografar a partir daqui, do que detém o olhar de cada um, sem ainda saber que trabalho daí virá.
Dos suportes físicos aos digitais
A imagem muda quando muda o seu suporte. A mesma fotografia no papel e no ecrã não é a mesma fotografia: pede outro tempo, outra distância, outro corpo. O papel detém; o ecrã faz deslizar. A página vira-se; o ecrã rola sem fim. Perceber as tendências da fotografia é perceber esta passagem, uma convivência tensa entre os dois suportes mais do que a substituição de um pelo outro.
O fotolivro, que poderia parecer o suporte antigo por excelência, é hoje um dos lugares onde a fotografia mais resiste e mais se reinventa. Resiste porque devolve à imagem um tempo e um peso que o ecrã lhe tira. Reinventa-se porque convive com o digital, dele se alimenta, e muitas vezes existe também em ecrã.O White Cube e a dimensão estática da observação da imagem, de um lado; do outro, a instalação e o fotolivro como dimensão temporal, como duração. A passagem do espaço expositivo ao objecto que se percorre no tempo. (Exemplos de fotolivros e plataformas a inserir.)
Do lado do ecrã, há formas de mostrar fotografia que não têm equivalente no papel: o site, o scroll, o arquivo navegável, a imagem que se reorganiza a cada visita. Estas formas têm a sua própria gramática, e essa gramática faz parte das tendências que a cadeira mapeia. Quando, no fim, cada estudante construir um trabalho, poderá fazê-lo em livro ou em site, e a escolha não será indiferente: cada suporte pede um modo de ver e oferece outro.O site como forma de mostrar fotografia, com a sua gramática própria de navegação e scroll. (Referências de fotografia em ecrã a inserir.)
A pergunta deste movimento mantém-se a do anterior, agora aplicada à matéria: que suporte serve as imagens que estou a fazer? O que importa não é qual é mais moderno ou mais nobre, mas qual dá a estas imagens o tempo e o corpo que elas pedem.
A fotografia como catalisador de outras formas de expressão
A fotografia raramente fica quieta dentro de si. Sai para o livro, para a parede, para a instalação, para o vídeo, para o site. É um catalisador: põe outras formas a reagir, e ao fazê-lo torna-se ela própria outra coisa. Este movimento é o coração prático da cadeira, porque é aqui que a imagem se torna trabalho, e o trabalho se torna objecto.
É também aqui que entra o percurso de construção do fotolivro, com o cuidado que merece. Um fotolivro não é uma colecção de boas imagens. É um trabalho: um corpo de fotografias pensado como unidade, onde cada imagem existe em função das outras e de um princípio que as convoca. A diferença não é de quantidade nem de qualidade. A colecção soma; o trabalho articula.As quatro categorias da fotografia (paisagem, retrato, objecto, arquitectura) e a sua presença isolada no fotolivro: Jem Southam, Harri Pälviranta, Valter Ventura, Candida Höfer / Catrica, Hélio Marques Pereira, Roni Horn, Lourdes Castro. A relação entre contentor e conteúdo: o livro e as imagens.
Desse princípio nasce tudo o resto, e nasce por uma ordem que vale a pena conhecer. Primeiro o que move alguém a fotografar, a inquietação que pede para ser fotografada ao longo do tempo. Depois a procura do fio que une as imagens já feitas, o princípio organizador que só se vê quando se dispõem as fotografias na mesa. Depois a selecção, que é cortar, e cortar boas imagens que não pertencem ao trabalho. Depois a sequência, a ordem em que as imagens se sucedem, que é onde o fotolivro se separa de qualquer outra forma de mostrar fotografia.O método de mesa: os cromos, fotografias impressas em formato pequeno, dão a ver o trabalho como um todo, a paleta, o ritmo, os pontos de destaque que servirão de âncora. O autor vê o conjunto espalhado; o leitor nunca o verá assim.
A sequência merece uma paragem, porque ensina uma lei que vale para o livro e para o site. Quem recebe um fotolivro nunca o vê como um todo. Vê-o em fragmento, spread a spread, no tempo e na ordem que o objecto propõe, como se recebe a música. A visão do conjunto fica reservada a quem fez o trabalho. Sequenciar é compor no tempo: decidir o que se vê primeiro, o que se vê a seguir, onde se acelera e onde se faz pausa. No site, esta lei muda de forma sem desaparecer: o scroll e a navegação são a sua sequência.A assimetria entre quem faz e quem recebe define a condição da leitura: o leitor recebe o trabalho no tempo, em sucessão, sem o abarcar de um só golpe. É a relação narrativa do leitor com o livro, e a relação háptica com o objecto que a sustenta.
A fotografia como ferramenta social e colaborativa
A imagem fotográfica é hoje, mais do que nunca, uma coisa que se faz com outros e entre outros. Partilha-se, comenta-se, remistura-se, circula em redes que lhe mudam o sentido a cada passagem. Esta dimensão social pertence à fotografia em vez de lhe ser exterior: é uma das suas tendências mais fortes, e transforma o que significa ser autor de uma imagem.
Para quem constrói um trabalho, isto tem duas faces. Uma é o modo como o trabalho se faz: muitos projectos nascem de colaboração, de arquivos partilhados, de imagens que não são do autor mas que o autor articula. Outra é o modo como o trabalho se financia e se sustenta, que deixou de ser invisível e passou a fazer parte do trabalho artístico. Conhecer estas formas de colaboração e de financiamento é hoje parte da competência de um fotógrafo.(Projectos colaborativos e modelos de financiamento a inserir: crowdfunding, apoios, residências.)
Há aqui também uma questão que a cadeira não evita: a imagem gerada por inteligência artificial. Ela é, ao mesmo tempo, uma nova forma da imagem técnica e uma ferramenta que entra no processo de trabalho. Pensá-la criticamente, perceber o que faz ao lugar de quem fotografa, é parte de mapear as tendências da fotografia hoje.A imagem gerada como problematização contemporânea dos dispositivos clássicos. Entra na cadeira como tema (o que faz ao referente e ao observador) e como ferramenta de processo. (Referências a inserir.)
Novos autores e novas formas de mostrar
O mapa fecha-se onde a fotografia se dá a ver: as feiras, as livrarias especializadas, os festivais, as plataformas e os observatórios, e os ecrãs onde a imagem circula sem parar. Conhecer este mundo, e os novos autores que o habitam, é a última tarefa da cadeira, e a que nunca termina.O mapa português do fotolivro: feiras, livrarias especializadas, plataformas e observatórios. A participação numa edição do Photobook Lisboa faz parte do percurso. (Outras plataformas a inserir.)
É também o momento em que cada estudante se torna, ele próprio, um desses autores. O trabalho que se constrói ao longo do semestre, fotolivro ou site, existe para chegar a alguém. E o teste último de um trabalho é dá-lo a quem o recebe sem explicação, e observar: se a pessoa o lê como o trabalho pede, na atenção que cada imagem merece, no ritmo que a sequência compôs, então as decisões serviram. Se não, aprende-se para o próximo.
Aqui o percurso fecha, mas não acaba. O trabalho que sai para o mundo deixa, em quem o fez, um princípio novo, uma pergunta que o próximo trabalho vai querer fotografar. As tendências da fotografia são um movimento em que se entra, e do qual se passa a fazer parte no momento em que se faz a primeira imagem a sério, mais do que um catálogo a memorizar.