

Dezassete Estudos Sobre a Personalidade é uma instalação online que articula as ideias de navegação no espaço suburbano onde as imagens foram criadas e no espaço rizomático e hipertextual da internet. As imagens presentes nas várias séries em torno das quais o trabalho se articula foram registadas ao longo de um período de dois anos nos percursos pendulares que na altura fazia.
O navegador é convidado a entrar num espaço aparentemente organizado para uma navegação autónoma, apenas para ser arrastado para um processo que não depende inteiramente dos seus comandos. As dezassete imagens que dão nome ao trabalho estão dispostas numa grelha regular, mas colocadas de tal modo que apenas se pode ver uma parte dessa grelha, como se estivéssemos diante de um mapa demasiado grande para se poder abrir e ver por inteiro.
Mostrar apenas um fragmento de uma peça maior aponta para a possibilidade de estarmos tão dentro de um espaço de referência que perdemos a noção do todo que o engloba e lhe dá sentido. No espaço suburbano, na navegação online ou na própria navegação em mapas, a adaptação reduz frequentemente o movimento a um conjunto restrito de trajetos que controlamos.
17 Studies parte da vontade de levar o desafio de resposta ao conhecido — todas as séries trabalham com elementos visuais vulgares da paisagem urbana — para o espaço físico dos lugares onde desenvolvia as minhas rotinas. Com a colaboração do músico e designer austríaco Lucas Dietrich, parti da imagem de uma das séries de Dezassete Estudos Sobre a Personalidade para desenvolver um cartaz que pudesse ser colado em locais de passagem.
O cartaz, em formato A2, estava dividido em dois. A parte superior mostrava uma planta junto ao elevador no andar do prédio onde habitava. A parte inferior foi deixada em branco, restando apenas um QR Code e a frase contribute to this art project.


Inicialmente, os cartazes foram colados em pontos de passagem, sobretudo junto de terminais de transportes públicos, e em alguns lugares de Berlim, onde Lucas Dietrich vivia. Eram locais comuns nos percursos quotidianos, pouco destacados, próximos da lógica dos cartazes de eventos culturais colocados de forma mais ou menos clandestina: pretendendo rivalizar pela atenção do público, acabam por rivalizar entre si pelo espaço disponível, gerando mais ruído do que informação.
Depois de algumas experiências sem grande participação, acrescentámos a marcador, na parte branca, a frase This would be some interchangeable text, reforçando o convite à inscrição através de uma primeira intervenção. Perante a parca resposta na rua, selecionei locais mais protegidos, onde pudesse dar alguma indicação sobre a natureza do trabalho. O projeto passou pelo Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e por habitações particulares, aproximando-se progressivamente de participantes específicos e de contextos controlados.


A possibilidade de trabalhar com pessoas específicas levou-me a pensar o projeto para um contexto de galeria. Realizei dois eventos no Arquivo 237, em Lisboa. No primeiro, mostrei os cartazes, que estavam disponíveis para inscrição na própria galeria, a série que lhes dera origem e documentação visual do que acontecera antes no projeto.
A passagem para o espaço expositivo não suspendeu o modelo participativo. Reuniu num mesmo lugar a imagem inicial, as suas deslocações, os sinais de deterioração e as inscrições produzidas em diferentes circunstâncias, acrescentando dois novos elementos: um vídeo e 37 kits de artista.


O vídeo foi desenvolvido em parceria com Lucas Dietrich: fiz as imagens a partir da minha rotina em Lisboa e ele construiu o som a partir da sua rotina em Berlim. Na inauguração, os sons das pessoas presentes na sala eram captados e integrados num loop sobre o qual se desenvolvia uma improvisação de Lucas Dietrich.
Foram disponibilizados 37 kits de artista que as pessoas podiam comprar, levar para casa e usar no preenchimento do cartaz. Cada kit consistia num contentor de poster carimbado e numerado, um cartaz em branco, um manual de instruções e um marcador.
O manual foi desenhado ao estilo das instruções de montagem das peças de mobiliário da IKEA, remetendo para outro lugar-comum do panorama visual urbano quotidiano. O marcador servia para desenhar no cartaz e completar uma ação iniciada na exposição, mas realizada fora dela.


Os compradores eram informados de que os cartazes viriam a ser expostos no mesmo lugar alguns meses mais tarde. A segunda intervenção no Arquivo 237 reuniu os cartazes preenchidos, fazendo regressar ao espaço expositivo imagens transformadas por ações que a exposição não controlara diretamente.




Dezassete Estudos Sobre a Personalidade e 17 Studies apontavam na mesma direção. Convocavam a atenção como fator de entrosamento e de partilha da construção do espaço, através de um modelo participativo que convidava a anular a distância entre criador, espetador, imagem e representação.
No primeiro trabalho, o site sugeria um modelo de navegação autónoma para depois o corromper através de comportamentos previamente programados. No segundo, o cartaz oferecia simultaneamente o poder de intervir sobre a representação proposta e o processo de degradação a que ela ficava sujeita, tanto pelo tempo como pela intervenção sobre um trabalho previamente constituído.