Birds are Windy
Birds are Windy coloca em relação duas imagens produzidas a partir de duas janelas: a janela em vidro martelado da cozinha de uma habitação e o para-brisas de um automóvel em movimento.
Trabalho desenvolvido no Mestrado em Arte Multimédia — Especialização em Audiovisuais, Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.
DUAS JANELAS
A primeira imagem parte de uma janela doméstica. O vidro martelado dá acesso ao exterior e, simultaneamente, impede que esse exterior se constitua como uma vista inteiramente disponível. A roupa da vizinha atravessa o enquadramento como luz e movimento; quando a janela se abre, surgem as janelas fechadas do edifício em frente.
A janela deixa de funcionar como uma superfície transparente sobre o mundo. A relação entre interior e exterior é produzida pelas variações da luz, pela abertura do caixilho e pela repetição da observação.
O segundo vídeo mostra o céu acima dos percursos pendulares. A câmara, presa ao tabliê e orientada para cima, assume o movimento do automóvel, mas exclui a estrada, a linha do horizonte e o ponto de fuga.
Sem horizonte, um trajeto conhecido deixa de confirmar a orientação do observador.
IMAGEM, ESPAÇO, PRESENÇA
Os dois vídeos são projetados em loop, frente a frente, com entrada pela parede lateral. O vídeo do céu tem aproximadamente 12 minutos e 30 segundos, a duração média de uma deslocação diária. Os planos da janela têm durações diferentes, reduzindo a possibilidade de uma repetição cíclica do conjunto.
O céu excede os limites da parede e alcança parcialmente o teto, o chão e as paredes laterais. A janela é projetada aproximadamente à escala real. Entre as duas imagens existe uma distância mínima de seis metros: um espaço para atravessar, escolher e permanecer.
A sombra não é uma interferência exterior ao trabalho: reinscreve o corpo no espaço que a projeção parecia oferecer apenas à visão.
DUAS EXPOSIÇÕES
Um Peixe Fora de Água
A primeira apresentação obrigou a instalação a responder a uma sala concreta. A relação de escala foi invertida: a janela tornou-se maior do que o céu e foi ajustada aos limites da parede. Sem uma segunda parede disponível, o céu foi projetado sobre um lençol estendido.
Birds are Windy
No Atelier de Lisboa, o vídeo do céu desdobra-se em várias projeções simultâneas de maior escala. A passagem entre projetores e superfícies abre sombras, altera a luminosidade e torna visível a posição do público.
A instalação organiza uma situação na qual observar implica mover-se entre imagens e reconhecer a própria presença no espaço.
O CÉU REGRESSA
Em 2022, o vídeo do céu é integrado em Carpe Diem — Houdini Is Not Dead, apresentado no Maus Hábitos, Porto, nos 32.º Encontros da Imagem. Mostrado em duplicado, entra em relação com séries fotográficas produzidas a partir de tomadas de vista repetidas ao longo da Estrada Nacional 10.
O seu reaparecimento não funciona como citação de uma obra anterior. O mesmo material passa a operar dentro de outro sistema, ligando duas experiências de deslocação pendular separadas no tempo.
A repetição deixa de ser apenas o tema das imagens e prolonga-se na circulação do próprio vídeo entre trabalhos e montagens.
REPETIR COMO TEMA
A tese de doutoramento regressa a Birds are Windy para situar a obra numa investigação mais longa sobre a observação das rotinas. Regressar aos mesmos pontos e repetir a mesma ação não é apenas o método usado para produzir as imagens: é o próprio tema do trabalho.
O movimento do automóvel liberta o olhar da posição fixa, mas retira-lhe as coordenadas que permitiriam dominar a deslocação. O esforço de adaptação aproxima a experiência de uma temporalidade ligada à duração.
A versão digital volta a reorganizar as duas janelas. A janela da cozinha permanece frontal, imóvel e única. O céu repete-se em quatro planos sincronizados, parcialmente sobrepostos e inclinados de modos diferentes.
A navegação da página torna-se uma experiência de orientação.
Trabalho de Projeto do Mestrado em Arte Multimédia — Especialização em Audiovisuais, Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Orientação de Susana de Sousa Dias.
Retomado na tese de doutoramento Carpe Diem, Houdini Is Not Dead: Fragmentação, Performatividade e Memória no movimento entre as imagens do quotidiano.