Carpe Diem,
Houdini Is Not Dead
Carpe Diem, Houdini Is Not Dead parte da memória das deslocações pendulares realizadas, em 2008, ao longo do troço da Estrada Nacional 10 entre Sacavém e Vila Franca de Xira, e da tentativa de as mapear fotograficamente.
Projeto desenvolvido no âmbito da tese de doutoramento Carpe Diem, Houdini Is Not Dead: Fragmentação, Performatividade e Memória no movimento entre as imagens do quotidiano, Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, 2025.
O PERCURSO E A INVENÇÃO DA AMNÉSIA
O trabalho regressa ao primeiro percurso pendular que fotografei de forma sistemática: o trajeto que fazia no primeiro ano em que dei aulas. As imagens procuravam mapear uma experiência repetida, mas sobreviveram ao desaparecimento da rotina que as tinha produzido.
Quando volto ao percurso, encontro uma estrada fisicamente alterada, uma fábrica em ruína e uma memória descontínua. O que permaneceu nas fotografias já não coincide com a experiência passada nem permite reconstituí-la como continuidade.
As inscrições Carpe Diem e Houdini Is Not Dead, pintadas em dois pilares do viaduto do IC2 sobre o início da EN10, passam de referências encontradas no percurso a título do projeto.
A documentação da rotina não conserva a repetição performativa que a sustentava. O regresso às imagens torna perceptível o intervalo entre experiência, hábito, representação e memória.
O regresso não recupera o trajeto: expõe as falhas que permitem ainda imaginá-lo.
A Invenção da Amnésia, projeto coletivo pensado e estruturado por mim e por Fernando Brito, reuniu Nuno Andrade, Renato Japi, André Fontes, Ricardo Blayer e Alexandre Alagôa em torno das relações com os lugares do hábito.
Em vez da estrada aberta e desconhecida da tradição da road trip, o projeto usava a estrada para fechar: regressar ao demasiado visto, à desatenção produzida pela convivência prolongada e à paisagem das rotinas. O Carpe Diem desenvolve-se inicialmente dentro desta investigação coletiva.
Casa d’Avenida
Na Casa d’Avenida, em Setúbal, o percurso circular entre salas foi usado para distribuir imagens que se repetiam, reapareciam com outra escala ou remetiam umas para as outras. A dúvida sobre a localização de cada imagem interferia na organização mental do percurso.
Project Room — Museu da Paisagem
A instalação online transformou o ecrã numa superfície aparentemente cartográfica. O público podia arrastar, ampliar, reduzir e atravessar ligações entre fotografias, vídeos, desenhos, mapas, textos e som. Cada escolha reconfigurava a exposição e dificultava a repetição voluntária de um percurso anterior.
O mapa deixava de funcionar como informação estável e previsível. A navegação aproximava-se de uma experiência de mapeamento construída pela presença e pelas decisões de quem percorria o trabalho.
Casa dos Cubos
Na Casa dos Cubos, ainda no contexto de A Invenção da Amnésia, o trabalho desloca-se da simulação do percurso para a materialidade e para a direção do olhar. As imagens são colocadas do chão ao primeiro andar, obrigando o corpo a variar a posição e a amplitude do movimento necessário à observação.
Uma fotografia do cartaz num pilar do IC2 é impressa, rasgada nas zonas correspondentes ao betão e colada a um bloco construído à escala real. A imagem deixa de se limitar à parede: pode ser contornada e observada de vários ângulos.
A genealogia não é uma lista de antecedentes: mostra como o percurso, a navegação e a matéria prepararam as Repetições do projeto autónomo.
ENCONTROS DA IMAGEM
A participação nos 32.º Encontros da Imagem marca a autonomização do Carpe Diem. Na Maus Hábitos, o trabalho ocupa a entrada, os corredores de passagem e as vitrines. Quinze cartazes mostram a progressão de uma sombra sobre o pilar onde se lê a inscrição Carpe Diem; depois da inauguração, permanece apenas um.
Durante a exposição, regresso semanalmente ao espaço e altero as imagens colocadas nos vidros. Cada mudança conserva uma referência à disposição anterior: uma imagem é substituída por outra do mesmo objeto, com luz diferente, ou reaparece próxima de uma nova relação.
O papel translúcido deixa a luminosidade do vídeo atravessar as fotografias. A humidade, as variações de temperatura e a passagem do público expõem as imagens a uma transformação material que já não depende apenas da montagem.
A memória no espaço transforma-se em memória no tempo.
DEFESA DA TESE
A defesa da tese constitui a segunda Repetição. Fotografias, imagens-objeto, elementos escultóricos, cadernos, livro-objeto e investigação escrita são apresentados como partes relacionadas do mesmo processo.
A tese articula o percurso prático e teórico sem o encerrar. Repetição, fragmentação e performatividade são entendidas como operações através das quais a imagem técnica é aproximada da experiência corporal, temporal e multidimensional que reduz ao plano.
A investigação não explica as peças a partir de fora: torna-se mais uma das formas materiais assumidas pelo trabalho.
MAQUETE DO LIVRO
A terceira Repetição corresponde à apresentação pública da maquete na Feira do Livro de Fotografia. O livro não surge como catálogo de uma exposição anterior: reorganiza as repetições através de uma sequência que exige avanço, recuo, comparação e memória.
As fotografias são impressas, expostas, retiradas, marcadas, dobradas e novamente fotografadas. Passam do plano ao volume, regressam ao plano e acumulam os sinais da sua circulação. A dobra, a sobreposição, a refotografia e o movimento passam a construir a imagem.
A condição de maquete é assumida. Não se apresenta um livro concluído, mas um estado editorial em que a montagem pode ainda ser testada, revista e reordenada.
Ao circular publicamente, esse estado provisório torna-se uma configuração autónoma do projeto e prepara a passagem posterior do livro para o espaço expositivo.
SALA 2
Na adaptação digital para a Sala 2, o visitante percorre imagens com o cursor, deixa traços, produz marcas de presença e altera a nitidez do som. A imagem deixa de ser apenas observada: responde à duração, à direção e à insistência do movimento.
De segunda a sexta-feira, as imagens circulam e transformam-se num ciclo semanal de rotina. No final de cada ciclo, as imagens resultantes passam para a grelha cumulativa do separador WORK.
Cada passagem desgasta a imagem e produz simultaneamente um novo documento.
ERRAR
A quinta Repetição transpõe o projeto para a plataforma ERRAR. A apresentação articula o processo de investigação, o percurso entre as imagens e uma nova adaptação do trabalho ao espaço digital.
Uma nova plataforma não recebe simplesmente o projeto: obriga-o a repetir-se de outra maneira.
FESTIVAL IMAGO
A exposição no Festival IMAGO constitui a sexta Repetição e devolve ao espaço expositivo o conjunto em desenvolvimento: fotografias, imagens-objeto, elementos escultóricos, cadernos, livro-objeto, dispositivo digital e imagem em movimento.
O projeto não regressa à forma apresentada nos Encontros da Imagem. Incorpora as transformações produzidas pela tese, pela maquete e pelas duas adaptações digitais.
Cada Repetição conserva vestígios das anteriores sem funcionar como sua síntese definitiva.
By Invitation Only, Galeria Passevite, Porto, 2021. Participação em exposição coletiva, curadoria de José Oliveira.
A cronologia secundária reúne apresentações parciais que não constituem uma nova Repetição do projeto.
Carpe Diem, Houdini Is Not Dead: Fragmentação, Performatividade e Memória no movimento entre as imagens do quotidiano.
Tese especialmente elaborada para a obtenção do grau de Doutor em Belas-Artes, especialidade de Arte Multimédia, Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, 2025.